
Guy Bourdin
não quero esquecer-te nunca, acredita.
uma frase simples
e tudo tão complicado -
tão feliz, quando determinaste a partida,
e eu tão triste na tua injúria, de não ser nada
nem sequer o pó sufocante que provoca a náusea -
a tontura da razão, a ponte ao longe-
mas esquecer, nunca .
um segundo ou mil anos, nunca -
depois de um copo partido é impossível reunir as faces.
as arestas pulverizadas serão sempre de um segundo copo,
sem o brilho, a perfeição do toque, a ingenuidade -
sim, não te rias, a ingenuidade pode ser de platina
ter a força da dinamite; criativa, sincera, pura, terna , incisiva -
e talvez seja essa a causa do ruir de escadas,
das portas terem bocas, mesmo que fechadas.
talvez seja essa a incomportável verdade
da duplicidade dos ímanes, de pólos e brilhos, cristalinos,
cada de um no seu modo
em confronto de horizontes; de um lado o Atlântico
de um outro a soldadura das margens, um rio -
um, de olhos tristes e mãos transparentes, cheias de linhas
sinuosas e divagantes, às vezes perdidas
uma, bipolar, por vezes luminosa, por vezes fria -
não foi sempre assim o fim da noite
e a manhã nem sempre se revelou como um intervalo de um mau dia.
nem sempre houve águas demasiado salgadas e maresias poluídas.
houve um tempo do relâmpago e do terramoto intenso
tão por dentro, tão profundo -
e houve um tempo de fósforos
e poemas enfeitados pelo fogo, que sumiram,
arderam pelas reservas do mundo, pela curvatura dos cisnes -
e houve um tempo da cristalografia, das ligações químicas
como identidade, a ingenuidade náufraga, pelas ilhas -
sem qualquer sentido, ridículo: cresce, dizes.
não, recuso-me, não soubeste medir as intensidades
torná-las mais famintas.
e tão antigas as queimaduras,
fricção de filamentos, fibras, algodão e sedas, pelo meio de Vesúvios
chamas, ascendendo, ascendentes, doces e incandescentes -
o que está em causa é o imerecimento: porquê contigo? dizes.
a circunstância conduz o homem por muitos caminhos
uma soma de códigos e géneses, inconcebidos pela marca do átomo
mais dos outros que subjectivo.
Simmel descobriu a imitação e a similitude,
a intersubjectividade das superfícies,
nas grandesmetrópoles
num século de dezanove, antes de chegar a vinte.
a escala mudou e por muitos lados;
há fumos cinzentos e praias murchas, sozinhas
- sem os nossos dentes que batiam -
não vou esquecer, nem penses, nem por um momento.
nem serei nunca a massa informe da cruz última,
essa é a diferença, viver realidades claras ou opacas
célebres ou frias
mas procurar luminosidades, aqueles dias -
e essa a razão maior de não te ler este poema
e ser segredo, e ouro negro
de brilho, de brilhos fumegantes, bem no cimo -
não vou esquecer nunca, nem penses,
agora que escondes a cor dos olhos como se fosse um acidente
um penedo sem poemas;
lembro-me do barco a remos,
da impulsão de um carro ligeiramente ondulante
sobre o barulho do mar, no meio da voracidade dos membros,
clarões únicos, flash e fotografias, no fim dos sábados
a escuridão e os melhores dias -
não te rias, não sufoques as pratas nem os silícios, existem e existiram -
e essa a razão de ser segredo este poema.
não, não te vou ler estas palavras que mostram grutas e te abrem medos,
porque essa seria a forma menos original de lhes pôr nome e selos;
estas palavras são memórias, memórias de linhos
e por isso não fecham o futuro do desejo
nem merecem o esquecimento,
e por isso subsistem -
sê feliz, digo-te, acredita.
serei feliz, digo-te, acredita,
mas nunca sem terra e sem raízes
porque, da mesma forma que reconheço o rosmaninho
e a alfazema,
as rugas do granito e o veludo do musgo,
verde e húmido
serás célula e foste ninho -
josé ferreira 22 Janeiro 2012
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